

Na época do descobrimento, ou do achamento (como diziam os portugueses), o Brasil era o paraíso das aves para os navegadores que aportavam por aqui. Tanto que entre as primeiras exportações da Colônia estavam as aves, coitadas. Sim. Usamos este adjetivo porque, de acordo com relatos históricos, os papagaios chegaram a servir de alimento durante as longas viagens pelo mar, tiveram as penas arrancadas para ter sua coloração natural modificada, entre outras coisas não muito felizes que não precisamos mencionar. O fato é que o papagaio era uma mercadoria que fazia sucesso, no sistema do escambo, e muitos comerciantes espertos enriqueceram com a ave. Sem falar que essa exótica espécie, das terras do Novo Mundo, fazia a alegria das damas da corte e entrava em todos os lares no século XVI, inclusive nas casas da pequena burguesia.
Os micos e os saguis também ocupavam o topo da lista das “mercadorias” preferidas na França. Com uma diferença em relação aos papagaios: o preço. Por ser mais difícil capturar os micos e os saguis vivos, eles eram bem mais caros que as aves coloridas. Mas o nosso papagaio era a preferência nacional francesa. E foi assim que ficamos conhecidos. Antes de ser chamada Terra do Brasil, o nosso país foi chamado de Terra dos Papagaios.
A maioria dos exploradores retratava a nossa ave nos relatos de viagem, nas cartas aos amigos que ficavam na Europa – e alguns recebiam mais do que cartas, eram presenteados com esse pequeno mimo. Em carta, o veneziano Giovanni Cretico escreve, em 1501, que os papagaios eram em grandes dimensões e muito coloridos. Isso chamava a atenção de qualquer um. Era um novo motivo para a curiosidade sobre a Terra descoberta.
Nessa história, os índios têm papel de destaque. Tanto aqui quanto na Europa. Eles muitas vezes faziam parte do intercâmbio comercial com alguns comerciantes na costa brasileira. E aguçavam a curiosidade dos colonos nos portos europeus. Eles chegaram, inclusive, a inventar processos para dar um colorido artificial às penas dos papagaios, que resgatavam com os franceses, na Região Amazônica.
Certamente, cobravam preços mais altos por isso. Escritores do século XVI dizem que eles tingiam as aves com o sangue de uma espécie de rã, chamada de rana tinctoria. Os índios eram tão bons nisso, que especialistas em tintura não conseguiam reproduzir a façanha dos nativos do Brasil. A descrição completa pode ser lida no livro O índio brasileiro e a Revolução Francesa, de Afonso Arinos.
Como era feito? Ah, vamos recorrer aos relatos do escritor Koch-Grunberg. Mas como todo relato histórico é repleto de contradição, com este não seria diferente. Nesta versão as aves não recebiam o sangue das rãs, mas sim a sua gordura. Enfim... O fato existia, o processo que era duvidoso.
Segundo ele, os índios da Bacia do Rio Negro, na Região Amazônica, como já dissemos, arrancavam as penas vermelhas das asas dos papagaios e esfregavam o local com a gordura de uma espécie de sapo. As novas penas nasciam então amarelo-laranja. O nosso papagaio bateu asas e ganhou fama, indo parar no Ensaio sobre o entendimento humano, de Locke, que influenciou as modernas revoluções liberais.
O comportamento dos índios seria um indício do tão conhecido jeitinho brasileiro? Bom, o teólogo Lourenço Stelio aponta o germe do nosso “jeitinho” naquela época. Quando a carta de Caminha levava ao rei de Portugal a descrição do Novo Mundo e um pedido de emprego para um parente do explorador. Quem sabe?