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A aula começa. E o Professor Algemiro da Silva Karaí Mirim vai ao quadro: Já u tembi ’ u porã. Não entendeu? Bom, essa frase traduz os resultados que a equipe do projeto Segurança Alimentar Indígena Guarani conquistou durante três anos de trabalho na aldeia Guarani Sapukai, em Angra dos Reis (RJ). Os alunos repetem com firmeza a frase do Professor Algemiro: “eu como alimento saudável”. A assessora pedagógica do Centro de Assessoria Intercultural Kondo (CAIK), Rita Rocha, fala sobre a experiência de ajudar a combater a mortalidade infantil na aldeia, por desnutrição, e as incríveis experiências na arte de educar um povo com hábitos tão diferentes dos nossos.



Conexão Aluno (CA) – O que mais chamou atenção quando você começou a trabalhar com os índios guaranis? Como você foi parar lá?

Rita Rocha – Quando comecei o projeto, coordenado pelo professor Domingos Barros Nobre, que há 12 anos presta assessoria pedagógica para a escola, fiquei chocada em saber que existia índio no Rio de Janeiro. Depois, na aldeia, fiquei impressionada como eles conseguiam manter a língua materna. Eles tinham dificuldade de me entender. As mulheres falam muito pouco o português. Eu não imaginava. É fascinante. São 500 anos de resistência! Fomos para lá desenvolver um projeto de combate à mortalidade infantil por desnutrição. Em 2005, 25% das crianças morriam, agora não temos mais casos assim. O nosso trabalho é feito em parceria com a escola.


CA – Quem dá as aulas? Como a escola funciona?

Rita Rocha – A Escola Karaí Kuery Renda existe há 12 anos, e há pouco mais de um ano foi reconhecida pelo Estado. A nossa diretora é branca, designada pelo Estado, a Rosa Maria Caloiero Cerqueira, mas os três professores são índios. Isso é um avanço. Não ter branco dando aula. Eles fizeram um curso de formação em Santa Catarina e estão preparando suas monografias. Ainda não são efetivos do Estado, mas recebem ajuda de custo. E no dia a dia, se empenham para dar aula a 140 jovens e crianças.

O Professor Algemiro começou ensinando embaixo de uma árvore, e hoje é o coordenador pedagógico e a escola é reconhecida. Ele participa de vários congressos pelo Brasil e leva o melhor para os alunos. O sistema de ensino é diferente do que estamos acostumados. Eles têm uma visão diferente da escola. Chegam, inclusive, a ter dúvidas sobre o aprendizado em sala de aula. Para eles, o aprendizado acontece no cotidiano, dentro das famílias.


CA – Quais as características de uma escola indígena? Como é o processo pedagógico?

Rita Rocha – Apesar de a escola ser bilíngue, as crianças só aprendem o português depois dos sete anos para garantir que terão a língua mãe reforçada. Também não são apegados à escrita. A oralidade é a marca mais forte. Tudo que é feito na aldeia é baseado no diálogo. Outra coisa interessante é a postura do professor. Ele nunca levanta a voz. Nunca mesmo. Mesmo com o barulho da criança arrastando a cadeira! Você fica encantada com a serenidade dele. E, principalmente, as crianças têm autonomia. A proposta pedagógica é levar a escola para a comunidade e levar a comunidade para dentro da escola.


CA – A autonomia funciona no processo educativo? Como é a atitude das crianças em sala de aula?

Rita Rocha – Não podemos esquecer que no caso das crianças guaranis, a escola é dentro da casa delas. Então, elas ficam na sala de aula enquanto querem. Elas aprendem até onde quiserem. É claro que no nosso mundo essa prática não funcionaria. Eu sou professora também e sei disso. Mas acho que poderíamos prestar atenção nesse tempo que obrigamos a criança a ficar sentada absorvendo conteúdo. Às vezes, não é produtivo. Com as crianças guaranis funciona dessa maneira. Elas aprendem até o seu limite. “Enquanto o encanto permanece.” Depois, levantam e vão brincar, vão fazer outras coisas. A escola poderia procurar uma vertente para lidar com esse limite dos alunos. Fazer atividades extracurriculares, por exemplo. Agora, se alguém imagina que elas são indisciplinadas, pelo contrário. São educadas, respeitam muito a figura do professor. Elas aprendem pelo exemplo dos mais velhos.


CA – Você falou sobre a tradição oral. Como os alunos se comportam com lápis e papel na mão?

Rita Rocha – As crianças não sabem lidar com a tradição escrita. Não são como as crianças brancas, que fazem uma pastinha e cuidam do caderninho para levar à escola. Mas adoram ler. Os guaranis adoram histórias e brincadeiras. Eles pedem: “tia, vamos brincar de brincadeira de branco?” Eu sempre digo: primeiro a brincadeira de guarani! E depois brincamos de coelho na toca, pular corda etc.


CA – Sem falar que toda criança é curiosa...

Rita Rocha – Muito. Eles agora querem aprender espanhol. Isso porque tem um professor de Informática que é um índio que veio da Argentina. E vai dar aula para eles. A nossa escola ganhou seis computadores. Não adianta as pessoas quererem ver um índio nu, caçando no meio do mato. Hoje, eles usam calça jeans, usam celular. Têm esse direito, mas a tradição tem que ser mantida. E conversamos muito sobre isso com eles. Quando chegou o programa “Luz para Todos” (programa do Presidente Lula de levar luz para todos os recantos do País) veio música de branco adoidado. Foi um pavor. A gente tem que ensinar que funk é legal, mas que a música religiosa deles deve continuar a ser feita. Ah, sim. Os guaranis usam a música para a religião. E não de maneira profana.


CA - É difícil preservá-los da influência dos brancos?

Rita Rocha – Nós temos um vínculo muito forte com a aldeia. Crescemos e aprendemos junto com ela. Na nossa aldeia (olha só, eu chamo de nossa) procuramos levar o que eles gostam. Adoram futebol. Jogam vôlei. Então conseguimos uma rede de vôlei para os jovens. Fazemos de tudo para que eles não precisem sair de lá. Uma coisa que eu sempre digo para eles é que a qualidade de vida da pessoa é o maior bem que ela pode ter. E isso significa preservar os seus valores, a natureza, a sua saúde, cultivar o conhecimento através da cultura. Eles ainda se reúnem para manter a casa de reza. É o coração deles. Quando ela fica velha, eles fazem um mutirão. É a resistência de vida deles.


CA- Você começou falando do problema da desnutrição infantil...

Rita Rocha – Sim. O nosso trabalho foi de criar barreiras ao industrializado. Eles adoram balas, doces, refrigerantes. Descobrimos que as mães davam para as crianças um pacote de biscoito e refrigerante. Elas não tinham mais fome, mas também não estavam alimentadas. Tivemos que ensinar. O guarani tem procedimentos sociais diferentes. A aldeia tem cerca de 340 pessoas, em oito famílias. O trabalho é todo em participação direta com essas famílias. Por isso, trabalhamos com receitas tradicionais, baseadas nos ingredientes do passado. Ensinamos o que é carboidrato, que não é bom misturar alimentos etc. Como eles gostam de frutas, conseguimos uma parceria com o Ceasa e compramos mais barato. Conseguimos levar alguns índios à universidade, aos laboratórios. Explicamos os perigos da pressão alta, que começa a chegar à aldeia.


CA – E quanto às críticas? O que as pessoas pensam desse processo de aculturamento dos índios?

Rita Rocha – É claro que existem críticas. Muitos dizem que estamos levando o capitalismo para dentro da aldeia. Mas eu acho que temos que levar mesmo. As pessoas precisam de dinheiro para sobreviver. Antigamente as pessoas chegavam para conhecer a aldeia, tiravam fotos, sujavam tudo e depois iam embora. A única fonte de renda dos índios é o artesanato. Agora tentamos estruturar. Existem passeios para conhecer a aldeia e os costumes guaranis. Cada turista irá pagar um valor e será recebido pelos índios que se preparam para isso. Estamos capacitando os jovens para recebê-los e para fazer pães. É uma nova fonte de renda, que eles podem levar para as famílias. Este é o último ano do nosso projeto na aldeia. Explicamos que eles devem preservar a tradição, mas principalmente, que ali dentro estão protegidos e têm um futuro: a sua terra.

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